

“A música de Chopin é composta com perfeição”, diz Hayato Sumino ao Apple Music Classical. “Mas, de alguma forma, ela carrega a chama do improviso.” A paixão do pianista japonês por Chopin, que vem desde a infância, se revela em Chopin Orbit (2026), homenagem profundamente pessoal ao compositor polonês. O álbum reúne oito obras fundamentais de Chopin com uma combinação de releituras improvisadas, além de peças curtas para teclado de Thomas Adès, Leoš Janáček e Leopold Godowsky, todas com qualidades chopinianas. “A música e a estética de Chopin são muito elegantes”, diz Sumino. “Eu adoro isso, porque improviso e componho dessa maneira. É uma música que me inspirou demais. As composições dele geralmente surgiam a partir da improvisação ao piano. Elas deviam ser belíssimas!” Hayato Sumino conheceu Chopin aos cinco anos, dois depois de começar a tocar piano. “Na época, eu nem sabia quem era ele”, afirma. “Eu simplesmente gostei da peça.” E qual era a peça? “A ‘Polonaise Nº 13’ em lá bemol maior — fácil, sem problemas”, diz ele. A maioria dos pianistas de 5 anos teria dificuldade em tocar a parte fluida da mão direita da obra, sem falar no acompanhamento preciso com a mão esquerda. O jovem Hayato logo incluiu no seu repertório a exigente “Valsa Nº 14” em mi menor. “Era muito divertido tocar essas peças. Depois eu quis tocar obras mais complexas de Chopin. Então aos 9 anos comecei a aprender o ‘Scherzo Nº 1’. Chopin me acompanha desde então.” Chopin Orbit oferece uma nova perspectiva a obras conhecidas do compositor, além de funcionar como uma boa porta de entrada para novos ouvintes. Sumino escolheu tocar o “Prelúdio ‘Gota d’Água’ Nº 15” em ré bemol maior, Op. 28 e a “Berceuse” em ré bemol maior, Op. 57 – duas das obras mais famosas do álbum – em um piano vertical, instrumento no qual milhões de pessoas aprenderam a tocar Chopin. Mesmo passagens incendiárias interpretadas em um piano de cauda, como as que irrompem perto do final da “Polonaise-Fantaisie Op. 61” e os momentos ágeis da mão direita no “Étude Op. 10, Nº 5”, se encaixam perfeitamente no clima de delicadeza reflexiva do álbum. “É como se fosse um diálogo intimista entre Chopin e o piano em uma sala minúscula”, diz Sumino. “Eu nem estava pensando em plateia.” Segundo ele, a escolha do repertório para o álbum aconteceu aos poucos. “Eu queria incluir o maior número possível de estilos da música de Chopin. Mas a inspiração surgiu quando tive a ideia de mudar a escala do ‘Aeolian Harp Étude’ para o modo lídio, que resultou na minha ‘Lydian Harp’, e a sonoridade do ‘Prelúdio Gota d’Água’, que virou o meu ‘Poslúdio Gota d’Água’.” Este último, que cita um tema de uma sessão de jazz de Keith Jarrett com o contrabaixista Charlie Haden, combina música tocada em um piano de cauda com linhas executadas em um piano vertical especialmente preparado por Sumino para emular o som de um contrabaixo dedilhado. “As minhas recomposições não são no estilo de Chopin”, diz ele. “Eu peguei um motivo dele para cada improvisação, mas a inspiração vem de diversos compositores. O meu arranjo do ‘Larghetto’ do Segundo Concerto para Piano de Chopin, por exemplo, é uma homenagem a ‘Peace Piece’, de Bill Evans [pianista de jazz], da qual eu queria que tivesse o mesmo clima. E eu acho que a estrutura e a estética da ‘Berceuse’ de Chopin têm uma vibe parecida com a da peça de Bill Evans: a mão direita bem fluida e improvisada, enquanto a mão esquerda mantém sempre o mesmo padrão.” Os improvisos de Sumino são como satélites que giram na órbita das peças de Chopin: permanecem independentes e extraem delas elementos fundamentais. “Existem técnicas variadas e muita coisa linda musicalmente em Chopin – como nos ‘Études’. Então eu usei um pouco disso nas minhas improvisações. Eu também quis incluir músicas de compositores que fizeram algo parecido com o que eu fiz. É claro que Janáček não tem relação musical com Chopin, mas Godowsky fez vários arranjos incríveis de Chopin. A ‘Segunda Mazurca’ [de Mazurcas para Piano] de Adès não é uma mazurca típica – ele pegou um fragmento de mazurca e o espalhou pela peça. A obra de Janáček se chama ‘Good Night!’, então eu quis colocá-la depois da ‘Berceuse’ de Chopin. É como se o ouvinte continuasse escutando a melodia da ‘Berceuse’, que eu toco em uma celesta, mas de longe, como em um sonho. E toquei a música original de Janáček em um piano de cauda. A ideia era precisamente fazer com que o ouvinte se sentisse entre a realidade e o sonho.” “Imaginary Polonaise” faz uma ponte, com nostalgia e romantismo, entre o universo de Chopin e o Japão de Hayato Sumino. “Apesar de a música polonesa e a japonesa serem muito diferentes entre si, os japoneses adoram a música de Chopin”, diz ele. “Acho que existem algumas semelhanças em termos de estética e personalidade, mas não sei explicar. Claro que é preciso coragem para usar a música de Chopin como referência para criar as minhas obras. A música de Chopin é como a Bíblia para qualquer pianista. É por isso que eu quis juntar a música dele com as minhas composições e recomposições. Eu faço isto desde criança: improviso, componho e arranjo.”