Aigul

Aigul

A mezzo-soprano russa Aigul Akhmetshina sabe contar uma história quando canta. Isso também fica claro quando ela fala da sua trajetória incomum, de uma família simples do vilarejo de Kirgiz-Miyaki, a mais de 1.300 km de Moscou, a estrela da ópera nos principais palcos do mundo. No seu primeiro álbum, Aigul (2024), ela interpreta árias famosas de alguns dos seus papéis mais marcantes – primeiro a Carmen de Bizet, depois a Charlotte de Massenet, o Romeu de Bellini e a Cinderela e a Rosina de Rossini. Aigul termina com a encantadora The Nightingale, peça tradicional do Bascortostão, região onde ela nasceu. “A minha avó cantava essa música para mim, era uma de suas preferidas”, diz ela ao Apple Music Classical. “Essa canção precisa de liberdade. E isso remete a Carmem. Carmen precisa de liberdade!” Uma feliz combinação de talento extraordinário, muito trabalho e sorte fez com que ela, aos 19 anos, se tornasse a integrante mais jovem do cobiçado programa Jette Parker Young Artists, da Royal Opera House de Londres, em 2016. Desde então ela foi a Carmen mais jovem a atuar na casa de ópera londrina e na Metropolitan Opera de Nova York, estreou no Festival de Salzburgo com I Capuleti e i Montecchi, de Bellini, demonstrou profundidade na trágica Charlotte de Werther e se estabeleceu como uma das principais intérpretes de Rossini. “Eu acredito que cada um tem seu tempo”, diz ela. “Nunca é tarde nem cedo demais. De alguma forma, todo mundo tem o seu destino. Mas não dá para prever a carreira de uma cantora. É como uma roleta-russa, você não sabe se o tiro vai sair.” Aigul admite que chegou a pensar, não muito tempo atrás, que se tornar uma cantora profissional era uma possibilidade remota. “Eu cantava o tempo todo quando era criança, não conseguia controlar. A música sempre esteve presente. Eu sou metade tártara, metade basquir, então aprendi as canções tradicionais basquires, que exigem flexibilidade, como o bel canto coloratura.” Ela conheceu o canto lírico com o professor do coral da cidade dela. “Eu sabia que seguiria esse caminho quando tinha 12 anos, mesmo sem nem sequer ter visto uma ópera na vida.” Dois anos depois, ela se mudou para Ufá, capital do Bascortostão, e estudou canto com Neilya Yusupova. Mas houve contratempos. Aigul foi reprovada no teste para uma bolsa de estudos na Academia de Música Gnessin, em Moscou, e depois perdeu a voz em um acidente de carro. “Quando abri a boca para cantar depois do acidente, parecia o som de um animal ferido. Foi horrível! E você percebe que todo o seu trabalho tinha ido por água abaixo.” A professora de Aigul ajudou na recuperação e bancou a ida dela para a New Opera World Competition em Moscou. “Eu desafinei no agudo de ‘Una voce poco fa’, de Rossini, mas mesmo assim fiquei em primeiro lugar.” David Gowland, diretor artístico do programa Jette Parker, ouviu a revelação adolescente e a convidou para um teste. Os custos da viagem para Londres foram pagos pela cidade dela. “Eram 365 pessoas concorrendo, uma loucura. Eu nunca tinha pisado no palco de uma ópera, e lá estava eu fazendo um teste em Covent Garden [sede da Royal Opera House].” Ela ficou entre os pré-selecionados do Jette Parker, passou no segundo teste e logo estava a caminho do estrelato. “A minha história de vida é muito parecida com a da Cinderela! Parte de mim pensa: ‘Ah, isso é inacreditável’. E outra parte pensa: ‘Bem, eu continuo provando que posso fazer isso’.”